A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desenvolveu, por meio da Comissão de Qualidade do Ar da Instituição (CQAr/Ufam), o sistema Qualiar-Ufam, plataforma que monitora e prevê, hora a hora, a qualidade do ar em Manaus e nos municípios de Itacoatiara, Parintins, Humaitá, Coari e Benjamin Constant. A ferramenta, criada pelo Centro de Ciências do Ambiente (CCA) e Prefeitura do Campus Universitário (PCU), fornece informações utilizadas pela Comissão de Qualidade do Ar da Ufam para subsidiar recomendações à Administração Superior em situações de deterioração da qualidade do ar e episódios de queimadas durante o período de estiagem.

A Comissão, instituída pela Portaria nº 2721/2026, utiliza as informações produzidas pelo Qualiar-Ufam, em conjunto com o sistema MONITOR_BETA, para acompanhar as condições atmosféricas, considerando as informações disponíveis nas estações, o tempo, a variação dos ventos, a umidade, as chuvas previstas e os focos de incêndio no estado. De acordo com o presidente da Comissão e diretor do CCA, professor André Mendonça, entre as informações apresentadas estão os níveis de material particulado, mapas de distribuição espacial, gráficos de monitoramento e análises sobre a situação da qualidade do ar nas localidades acompanhadas. 

“A medição vem de uma rede de sensores de baixo custo (acessadas via plataforma comercial PurpleAir), instalados em vários locais. Cada sensor mede o ar a cada poucos minutos. O sistema corrige as leituras pelo método da agência ambiental dos Estados Unidos (EPA), porque esse tipo de sensor exagera a poluição quando o ar está muito úmido, como é comum na Amazônia”, explicou o professor.

Os dados são organizados em painéis e relatórios que permitem acompanhar a evolução dos indicadores ambientais e apoiar pesquisas, ações de gestão pública e a divulgação de informações à comunidade acadêmica. “A cada hora, o sistema reúne quatro informações: 1) O ar de agora: que é o que os sensores medem e as tendências nas últimas horas. 2) Onde há fogo: Os focos de calor detectados por satélite (INPE, NASA e o Painel do Fogo do Censipam), com o tamanho e a duração de cada evento. 3) Para onde o vento leva a fumaça: O vento previsto (direção e velocidade) perto do chão e também a cerca de 800 e 1.500 metros de altura, onde a fumaça das queimadas costuma viajar. O sistema refaz o caminho do ar nas últimas 60 horas para saber por cima de quais queimadas ele passou antes de chegar à cidade e 4) O tempo: Chuva (prevista e observada) que lava o ar, e a altura da camada de ar onde a fumaça se mistura, que é rasa de madrugada e alta à tarde. Com isso, o sistema calcula a qualidade do ar esperada para cada uma das próximas 24 horas”, detalhou o professor André. 

O valor de cada cidade é calculado a partir da mediana dos sensores, e não da pior ou da melhor medida, a partir de um sensor de referência. Os resultados são apresentados nas cinco classes oficiais do Índice de Qualidade do Ar (IQAr), definidas pela Resolução CONAMA nº 506/2024: Boa, Moderada, Ruim, Muito Ruim e Péssima. Segundo a professora Karenn Silveira Fernandes, ligada ao Departamento de Química, também membro da comissão, a plataforma também contribui com a popularização da ciência. 

“Ao usar o IQAr estabelecido em resolução Conama, um índice que relaciona faixas de concentração de MP2,5 com cores, a plataforma permite uma visualização direta e rápida do momento atmosférico e também em momentos futuros. O usuário não necessariamente precisa saber o que é material particulado ou como as partículas viajam, pois através das cores e dos nomes das "classes" (boa, moderada, ruim, muito ruim e péssimo) qualquer usuário compreenderá o risco ou não em que ele está exposto”, destacou.

Fora da sede

De acordo com a meteorologista e professora, Juliane Querino, ligada ao Curso de Engenharia Ambiental do Instituto de Educação, Agricultura e Ambiente (IEAA), localizado em Humaitá, é fundamental ampliar o monitoramento da qualidade do ar para todos os campi da Ufam. “Cada unidade precisa contar com equipamentos próprios para produzir informações locais e integrar esses dados a uma rede de monitoramento da Universidade. Essa estrutura fortalece tanto a pesquisa quanto a tomada de decisões em situações de risco. No IEAA, por exemplo, já existem projetos voltados ao monitoramento da qualidade do ar e das condições de tempo e clima. Essas iniciativas geram conhecimento científico e fornecem informações úteis para a sociedade. Com isso, é possível apoiar ações de prevenção, orientar a comunidade acadêmica e a população, além de contribuir para a construção de um sistema cada vez mais abrangente e eficiente”, contou.

Boletins

Quatro vezes por dia, às 20h30, 02h30, 08h30 e 14h30, a Comissão publica um boletim com a situação de cada cidade, além da previsão para o período seguinte. Quando os critérios da Comissão indicam restrição ou suspensão de atividades, há também a produção de uma nota técnica com a recomendação. Os boletins e as notas técnicas produzidos pela Comissão de Qualidade do Ar da Ufam estão disponíveis na página do sistema.

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Restrições

Os responsáveis pelo sistema destacam que os sensores utilizados são adequados para acompanhamento contínuo da qualidade do ar, mas não substituem estações oficiais de referência. “Em fumaça muito densa, acima de cerca de 500 µg/m³, as leituras ficam menos precisas. A previsão também erra, sobretudo a intensidade dos picos mais fortes. Por isso, cada boletim mostra uma faixa de valores, e não um número único. Algumas cidades do interior têm só uma ou duas estações e começaram a ser acompanhadas há poucos dias”, explicou o presidente da Comissão.

Projetos de pesquisas

Além da função operacional, o Qualiar-Ufam integra um projeto de pesquisa voltado ao estudo da dinâmica da fumaça durante a estiagem na Amazônia. Entre os objetivos estão identificar a origem da fumaça que alcança cada município, compreender a influência das condições meteorológicas e das características urbanas sobre a permanência dos poluentes e ampliar o tempo de antecedência dos alertas à população.

“O desenvolvimento do modelo incorpora resultados de pesquisas realizadas na Amazônia, como as medições da torre ATTO e do experimento GoAmazon, além de ajustes específicos para cada município monitorado com base nos dados locais. A meta da equipe é consolidar um modelo treinado com séries históricas de vários anos para utilização na estiagem de 2027 e publicar os resultados em periódico científico”, afirmou o professor André Mendonça, presidente da Comissão.

Próximos passos

De acordo com a professora Karenn Silveira, com essas informações e pesquisas será possível ensinar o modelo com dados reais e locais. “À medida que ampliamos a coleta e a validação de dados, o modelo se torna mais robusto e mais adequado às características atmosféricas da Amazônia. Para isso, é fundamental expandir o monitoramento para os campi do interior, utilizar sensores locais e fortalecer o financiamento de pesquisas de graduação e pós-graduação. O objetivo é construir um modelo com alta precisão e baixa suscetibilidade a vieses, capaz de subsidiar decisões baseadas em evidências. Com esse avanço, a plataforma poderá apoiar a população, órgãos públicos e gestores no monitoramento da qualidade do ar, na prevenção de queimadas e na produção de conhecimento científico. Ainda há etapas de campo e de pesquisa a serem concluídas, mas o potencial de aplicação do modelo é amplo”, finalizou.

Sobre a Comissão

A composição da Comissão de Qualidade do Ar da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) foi definida a partir de consulta realizada, via Sistema Eletrônico de Informações (SEI), a todas as unidades acadêmicas da capital e fora da sede. A Comissão tem a finalidade de discutir medidas para ampliar a capacidade de resposta da Universidade diante de novos episódios de deterioração da qualidade do ar no Amazonas, fortalecendo as ações institucionais de proteção à comunidade universitária frente às condições climáticas. O grupo é presidido pelo diretor do Centro de Ciências do Ambiente (CCA/Ufam), professor André Luiz Alencar de Mendonça, e reúne 18 integrantes de diferentes campi da Ufam, representantes das áreas de saúde, monitoramento ambiental, meteorologia, ciências ambientais, proteção florestal e comunicação institucional.